Alimentos podem não ser tolerados por vários mecanismos. Os principais são: metabólico (dependente da digestão e absorção) e imunológico.

Leite animal, contém componentes que podem determinar sintomas, em nossos pacientes, pelos dois mecanismos: metabólico e imunológico.

Quando o mecanismo metabólico está envolvido, os problemas estão relacionados, na sua maioria, à lactose, por deficiente atividade enzimática para sua digestão (aqueles relacionados ao seu produto de digestão, galactose são bem mais raros).

Quando o mecanismo imunológico está presente, temos reações de hipersensibilidade, de vários tipos, aos componentes proteicos levando ao aparecimento das alergias ao leite animal. Cada mamífero tem componente proteico específico para seu grupo.

A lactose é a mesma no leite de todos os mamíferos, inclusive no leite materno. Portanto não há possibilidade de haver “alergia a lactose”, pela ausência de especificidade e por ser um componente não proteico.

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 Intolerância à lactose

Sintomas de intolerância à lactose são assaduras, borborigma, distensão e dor abdominal, diarreia explosiva, flatus e náuseas. A quantidade de lactose, causando sintomas, varia de indivíduo para indivíduo, podendo haver ausência de alguns, como a diarreia. Os sintomas cessam logo com a eliminação de lactose na alimentação da criança. Nesse caso, os leites e fórmulas isentos de lactose são úteis.

Deficiência de lactase pode ser:

  • Primária: congênita (raríssima), fisiológica do recém-nascido (processo adaptativo que não merece manobras dietéticas que podem interferir na aquisição de microbiota protetora) e tardia, ontogenética (atividade de lactase diminui em mamíferos, com a idade). A ontogenética ocorre em humanos, após três anos de idade.
  • Secundária: por agressões às vilosidades intestinais de qualquer etiologia, com diminuição da atividade de lactase. Praticamente, não existe intolerância à lactose nos primeiros 3 a 4 anos de vida, a não ser que seja secundária à lesão das vilosidades intestinais por doença do intestino delgado, como Doença Celíaca, Alergia Alimentar, infecção intestinal persistente, entre outras.

Tratamento de intolerância à lactose:

Dependendo da atividade residual de lactase, suspender ou diminuir a lactose. Utilizar leites e fórmulas especiais isentos ou com baixo teor de lactose. Enzima de substituição, lactase, pode ser usada.

Reposição de cálcio, quando níveis diários recomendados não são atingidos, deve ser feita.

 

Alergia às proteínas dos leites animais.

Sintomas de alergia às proteínas dos leites são vários e dependem do aparelho-alvo, a saber: respiratórios (raros) cutâneos (um pouco mais frequentes) e gastrointestinais.

Podem ser imediatos (mediados por IgE), mistos (mediados por IgE e por células) e tardios (mediados por células). A não ser nos primeiros, imediatos, os sintomas não melhoram rapidamente, com a retirada do leite da alimentação da criança, pois temos que esperar melhora da inflamação causada pela reação à proteína do leite animal.

No que se refere a manifestações gastrointestinais, merecem comentários e destaque as seguintes:

  • Vômitos e diarreia logo após ingestão do leite animal: alergia mediada por IgE. Digestão e absorção mantidas.
  • Proctite e Proctocolite: sangue e muco nas fezes, em crianças alimentadas ao seio (quando proteínas oferecidas através do leite materno, úteis para estimular tolerância na maioria, determinam alergia em crianças predispostas) ou com fórmulas. Digestão e absorção estão mantidas. Alergia pode ser a múltiplos alimentos, mas nem sempre é.
  • Alergia ao leite animal, secundária a agressão infecciosa (Diarreia Persistente) e Enteropatia por alergia ao leite animal: digestão e absorção alteradas. Alergia pode ser múltipla (leites, soja, trigo, ovos…) e pode estar associada à intolerância metabólica à lactose.

Tratamento de alergia às proteínas dos leites:

Escolher fórmula com proteína do leite modificada que mais se adapta ao tipo de alergia apresentado pela criança. Nas mediadas por IgE, nas Proctites e nas Proctocolites e alergias com manifestações fora do tubo digestório, não há necessidade de se retirar a lactose. Nas alergias imediatas (mediadas por IgE), será feito, também, tratamento medicamentoso adequado ao caso.

Em amamentação materna, é indicada dieta de exclusão de proteína do leite animal, não de lactose, para a mãe. O leite materno tem quase o dobro de lactose do que o leite de outros mamíferos e lactose não dá alergia.

Quando há lesão do tubo digestório alto, as fórmulas com proteína modificada devem ser isentas, também, de lactose, pois existe alteração concomitante de sua digestão.

Fórmulas elementares, de aminoácidos, podem ser primeira opção em crianças graves, seguidas de teste com fórmula extensamente hidrolisada após melhora e recuperação do estado nutricional. São úteis, também, em alguns casos onde não há tolerância às fórmulas extensamente hidrolisadas.

Reposição de cálcio, quando níveis diários recomendados não são atingidos, deve ser feita.

As fórmulas HA (parcialmente hidrolisadas) não servem para tratamento. Seu uso se restringe a prevenção de alergia ao leite em crianças com famílias predispostas.

Lembrete importante: exames para detectar IgE específica para alimentos em laboratórios de rotina e testes cutâneos disponíveis atualmente, só são úteis naquela formas de alergia com sintomas imediatos, mediados por IgE. Nos outros tipos de alergia a alimentos, o diagnóstico é clínico.